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Quando o sistema pergunta: “por que essa pessoa não contou isso direito?”

  • 8 de abr.
  • 4 min de leitura



Tem uma cena que se repete nas cortes de imigração dos Estados Unidos.

Uma pessoa senta à frente de um juiz, começa a contar o que viveu — e trava. Pula um pedaço. Contradiz algo que disse antes. Parece distante demais, ou emocionada demais. E ali, naquele momento, uma pergunta silenciosa paira no ar: ela está dizendo a verdade?


Essa pergunta tem peso de vida. Em um sistema migratório cada vez mais pressionado, com backlog de cerca de 3,2 milhões de casos e queda recente nas taxas de aprovação de asilo, o tempo — e muitas vezes a disposição — para compreender o que está por trás de uma narrativa fragmentada parece cada vez menor. Em agosto de 2025, dados da TRAC mostraram que apenas 19,2% dos pedidos de asilo decididos naquele recorte foram concedidos. Em janeiro de 2026, outra análise citada pelo Los Angeles Times indicou aprovação inferior a 3% nos casos decididos naquele mês. 


E é exatamente aí que o trauma pode custar a alguém o direito de ficar.

Experiências de violência, perseguição, abuso ou exploração não ficam guardadas na memória como um arquivo organizado. Elas se fragmentam. Se embaralham. Às vezes somem por completo — até que alguma coisa as traz de volta de uma forma que a própria pessoa não consegue controlar.


Por isso, uma pessoa traumatizada pode esquecer datas, confundir a ordem dos fatos, travar ao tentar descrever uma cena, demonstrar emoção intensa ou, ao contrário, parecer completamente dissociada do que está contando.

Fora de contexto clínico, isso pode ser lido como contradição, exagero ou falta de credibilidade.


Mas, clinicamente, essas respostas têm nome e explicação. Lacunas de memória, narrativas não lineares e mudanças de comportamento durante o testemunho podem fazer parte do impacto do trauma — e muitas vezes são agravadas pelo estresse do próprio processo migratório.


O que parece contradição pode ser fragmentação de memória. O que parece frieza pode ser dissociação. O que parece exagero pode ser ativação traumática.

Na maioria dos casos de asilo, a história contada pelo solicitante é uma das peças centrais do pedido. E, quando a credibilidade é colocada em dúvida, o caso pode ser profundamente enfraquecido.


Ao mesmo tempo, histórias contadas por sobreviventes de trauma frequentemente desafiam aquilo que, culturalmente, muita gente espera de um relato “crível”: consistência absoluta, linearidade e estabilidade emocional. O problema é que o trauma nem sempre se apresenta assim.


Em 2026, esse cenário ficou ainda mais delicado com a publicação de uma regra do DOJ que tornou a revisão de mérito pelo Board of Immigration Appeals discricionária, em vez de automática em todos os casos. Isso aumenta ainda mais o peso de cada audiência — e o risco de que uma leitura superficial de um testemunho afetado pelo trauma tenha consequências definitivas. 


O papel da avaliação psicológica


É aqui que um laudo bem construído deixa de ser apenas um documento de apoio e passa a ser uma ferramenta essencial de proteção.


Quando há sintomas de PTSD ou outros impactos psicológicos que podem afetar a forma como a pessoa fala, lembra ou reage, a avaliação psicológica ajuda a traduzir isso de forma clínica, técnica e compreensível para a corte.


Mas um laudo de qualidade vai além de descrever sintomas. Ele explica como aquele trauma específico afeta aquela pessoa específica — sua memória, sua narrativa, sua regulação emocional, seu funcionamento hoje.


Não é dizer que a pessoa chora, trava ou parece ansiosa. É explicar como, quando e por que esses sintomas aparecem — e o que eles revelam sobre a experiência que está sendo relatada.


Essa diferença importa.

Porque, em um sistema com exigência crescente de corroboração, a avaliação psicológica pode ser uma das formas mais sérias e rigorosas de demonstrar algo que nenhum documento, sozinho, consegue provar: o impacto real do que uma pessoa viveu.


Quando trauma e sistema legal se encontram, a credibilidade não pode ser avaliada sem considerar o que a experiência fez com quem está tentando contá-la.


Às vezes, a pergunta não deveria ser: “por que essa pessoa não contou isso direito?”


A pergunta certa é: o que o trauma pode estar fazendo com a forma como essa história está sendo contada?


E essa pergunta — quando feita com rigor clínico e traduzida em linguagem que uma corte consegue compreender — pode mudar o destino de um caso.


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Referências

TRAC Immigration. Immigration Court Asylum Grant Rates Cut in Half. - Immigration Court Asylum Grant Rates Cut in Half 

Los Angeles Times. Asylum approvals plummet as fearful immigrants skip hearings. - Asylum approvals plummet as fearful immigrants skip hearings - Los Angeles Times

UNHCR. Credibility Assessment in EU Asylum Systems. - 51a8a08a9.pdfSaadi, A. et al. Associations between memory loss and trauma in US asylum seekers. - Associations between memory loss and trauma in US asylum seekers: A retrospective review of medico-legal affidavits - PMC

Lustig, S. L. et al. Symptoms of Trauma among Political Asylum Applicants. - Symptoms of Trauma among Political Asylum Applicants: Don't Be Fooled

Scruggs, E. et al. A qualitative study of legal perspectives on medical affidavits in the asylum process. - “An Absolutely Necessary Piece”: A qualitative study of legal perspectives on medical affidavits in the asylum process - PMC

 
 
 

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Samara Muniz, Trauma therapy, Immigration Evaluation, Forensic Evaluation

Terapia Especializada em Trauma e Multiculturalismo, e Avaliação Psicológica de Imigração em Boston,  Massachusetts.

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